segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

José ou João. Diante dos jovens, quem somos?


Um conto que aconteceu numa terra distante, há muito, muito tempo… 

Dizem os mais velhos que, além das montanhas geladas e dos vales onde o vento cantava como um viajante cansado, existia uma grande cidade de pedra, com construções e ruas estreitas. O tempo do inverno se aproximava. Ah, o inverno. Ali, eles eram longos, e o frio parecia entrar até nos ossos. Era um tempo em que muitos jovens, vindos de aldeias pobres, buscavam trabalho para sobreviver.

Entre eles estava Bartolomeu, um rapaz de cerca de dezesseis anos, órfão, tímido, com as mãos calejadas e o olhar sempre meio assustado. No verão, trabalhava na terra. No inverno… apenas tentava não passar fome.

Numa manhã especialmente fria, Bartolomeu entrou na sacristia de uma igreja da cidade. Talvez buscasse abrigo. Talvez silêncio. Talvez apenas um canto onde ninguém o enxergasse.

Mas alguém o viu.

Seu José, o sacristão, homem de poucas palavras e menos paciência ainda, procurava desesperadamente alguém para ajudar na missa. Ao ver o rapaz encolhido num canto, chamou-o sem cerimônia:

- Venha cá, você vai ajudar no altar.

Bartolomeu, assustado, respondeu baixinho:

- Eu... eu não sei.

Seu José franziu a testa.

- Como assim não sabe? Venha logo.

- Eu nunca ajudei... - murmurou o rapaz, envergonhado.

A impaciência virou fúria.

- Você é um animal! Se não sabe ajudar, o que faz aqui?

E, tomado por um impulso cruel, pegou um espanador e começou a bater no menino, que fugiu apavorado, tropeçando nas próprias pernas.

Foi então que uma voz firme ecoou pela sacristia:

- Pare imediatamente!

Era Padre João, um jovem sacerdote ordenado há menos de um ano. Seu rosto, normalmente sereno, agora mostrava indignação.

- Por que bater nele desse jeito? - perguntou, aproximando-se.

Seu José, ainda ofegante, respondeu:

- Que importa? Se não sabe ajudar a missa, por que vem à sacristia?

Padre João respirou fundo.

- Você agiu mal. E me importa muito, sim. Ele é meu amigo. Traga-o aqui agora mesmo.

O sacristão, sem entender, correu atrás do rapaz e o trouxe de volta. Bartolomeu tremia, com lágrimas misturadas ao frio. Padre João abaixou-se até ficar à altura dele.

- Já esteve na missa hoje, meu amigo?

- Não... 

- Então venha. Depois quero conversar com você sobre algo que vai lhe agradar.

Após a missa, Padre João levou o rapaz ao coro da igreja, onde a luz entrava suave pelas janelas altas.

- Como você se chama? - perguntou com um sorriso.

- Bartolomeu.

- E de onde vem?

- De uma aldeia distante… não tenho pai nem mãe.

O padre ouviu tudo com atenção. Não havia pressa em suas perguntas. Havia cuidado.

- Sabe ler? Escrever? Cantar?

Bartolomeu balançou negativamente a cabeça.

- Não sei nada... - disse, com vergonha.

- Sabe assobiar?

O rapaz sorriu pela primeira vez.

- Isso eu sei.

Padre João riu junto.

- E por que não vai ao catecismo?

- Porque os pequenos sabem mais do que eu... e fico com vergonha.

O padre colocou a mão em seu ombro.

- Se eu te ensinasse sozinho, só nós dois, você viria?

Os olhos do menino brilharam.

- Viria... contanto que ninguém me bata.

- Aqui ninguém vai te maltratar. Pelo contrário, você será meu amigo. Quer começar agora?

- Agora mesmo!

Padre João levantou-se, fez o sinal da cruz e começou a ensinar. E, naquele instante, acrescentou algo que marcaria para sempre a história:

- Vamos rezar juntos uma Ave-Maria.

Bartolomeu não sabia as palavras. Então o padre rezou devagar, como quem planta uma semente. O menino repetiu, sílaba por sílaba, com a voz trêmula, mas cheia de esperança.

Nos dias seguintes, aprendeu sobre Deus, sobre dignidade, sobre esperança. E, pouco a pouco, outros jovens foram se aproximando. Alguns saíam da prisão. Outros vagavam pelas ruas. Todos encontraram em Padre João uma mão estendida, não um dedo acusador.

As pessoas contam que daquele encontro simples, nasceu algo que mudaria a vida de muitos jovens daquela terra distante e de outras terras também. E tudo começou porque um homem decidiu não bater, mas escutar.

(...)

Há sempre um pouco de verdade nos contos. E neste, de maneira especial, há muita. O jovem da história é Bartolomeu Garelli. A cidade de pedra é Turim. O fato ocorreu em 8 dezembro de 1841, o sacristão se chamava José Comotti, o padre João era São João Bosco e este encontro marcou o início do Oratório e da obra salesiana.

Embora pareça um daqueles contos que a gente ouviu quando criança para pegar uma lição de moral, o fato de ter sido real precisa nos causar uma reflexão. Na nossa vida e no nosso trabalho pastoral o que fazemos quando um "Bartolomeu" cruza o nosso caminho?

Há um pouco de Seu José na nossa atitude? Um tanto de impaciência, de julgamento rápido, de expectativa de que o jovem já venha “pronto”, educado, perfeito?

Ou abrimos nossa guarda e somos como o Padre João e enxergamos aquilo que é o essencial (e, portanto, invisível aos olhos):

  • que muitos jovens não precisam de broncas, mas de alguém que os veja;
  • não precisam de exigências, mas de oportunidades;
  • não precisam de perfeição, mas de acolhimento.

Nosso mundo hoje é tão diferente da Turim de 1841, e encontramos tanta gente com momentos e atitudes de João e de José.

Quem queremos? Quem encontramos? Quem vem e aparece? 

  • Os impecáveis, disciplinados, formados? 
  • Ou os feridos, atrasados, confusos, com medo, com vergonha, com histórias difíceis?

Queremos vitrines ou encontros? Queremos ordem ou transformação?

Porque, no fim das contas, toda comunidade, toda escola, toda paróquia, toda família sempre terá um Seu José e um Padre João dentro de si. Em cada uma delas há gestos que ferem e gestos que levantam. Há quem afaste e há quem acolha. 

O desafio é escolher, todos os dias, de que lado da história queremos estar quando um Bartolomeu aparecer diante de nós.

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