A comunidade de São Miguel sempre foi conhecida por seu sino azul, que ecoava pelas manhãs como um convite à vida. Antes mesmo do sol romper por completo o horizonte, Dona Estela já caminhava em direção à capela, abrindo as portas de madeira que rangiam como quem desperta devagar de um sono profundo. Era uma comunidade pequena, simples, marcada por laços fortes e, como toda pastoral viva, também por tensões que surgem quando o zelo ultrapassa a sensibilidade.
Numa dessas manhãs de quinta-feira, enquanto o cheiro do café recém-passado se misturava ao perfume do incenso da missa diária, Estela percebeu que Clara não estava no seu banco habitual. Clara era jovem, dedicada, sempre sorridente... Pelo menos até a semana anterior, quando uma discussão pública com Beatriz, coordenadora da Pastoral do Canto, abalou o clima da comunidade.
Tudo começou com a preparação da Missa da Padroeira. Beatriz, perfeccionista, exigia que cada ensaio fosse impecável. Clara, recém-chegada ao grupo, desafinou num trecho delicado do salmo. A correção de Beatriz, dura e feita diante de todos, feriu mais do que a voz de Clara. Palavras ríspidas foram trocadas, e o silêncio que se seguiu pesava mais que o som do sino azul.




