domingo, 18 de janeiro de 2026

Cinco maneiras de ajudar um grupo a crescer

Existem diversos materiais a respeito da vida em grupo, de modo especial da vida num grupo de jovens. Alguns se arriscam em fórmulas, modelos e estruturas prontas que servem para ser replicadas. Em alguns casos isso funciona. A prática, no entanto, indica que quanto mais fechado o modelo, quanto mais rígida a fórmula, quanto menos adaptativa  a estrutura, menor  chance de dar certo. 

Isto, de fato, é verdade quando consideramos que cada realidade possui variáveis que devem ser levadas em conta. Cada grupo, cada paróquia, cada comunidade tem uma história, um contexto e desafios próprios. Não há fórmula ou receita que dê conta disto.

Não vamos, porém, partir para o extremo oposto e achar que não há como aprendermos com a experiência do outro já que ele não "calçou a nossa bota" ou "pisou no nosso chão". Acreditar nisso é bobagem. Existe uma grande riqueza na aprendizagem com a observação. E a capacidade do ser humano de se adaptar é imensa.

Se você reparou no título do texto, deve estar se perguntando: Para que esta introdução tão longa? Porque estas dicas chegam com este pano de fundo. Não são receitas prontas, nem fórmulas mágicas. Precisam ser adaptadas de acordo com a história do grupo, sua realidade atual, suas dificuldades e suas perspectivas. E se você acompanha um grupo, coordena ou anima encontros, estas dicas são para você.

1. Começa pelo conteúdo x Começa pela vida

Por onde começar um encontro ou um tema? A tentação primeira é despejar conteúdo, verdades, doutrinas. Este é um método que existe e há quem pense assim e defenda esta forma de agir. Há um ganho no tempo. As coisas já são esclarecidas logo no início e a discussão é diminuída. A verdade é encaixada na vida. E cada um que lute para dar conta disto.

Parece mais fácil, mais eficiente e até melhor. Mas há quem defenda uma abordagem diferente. Eu, inclusive. A ideia inicial deste texto aponta justamente para isto. 

A alternativa pastoral: Cada realidade onde existe um grupo, embora possua pontos em comuns com outras realidades, tem um histórico e uma vivência próprias. Desta forma, não é a vida que se encaixa no conteúdo, mas o conteúdo que ilumina a vida. 

Por que ajuda a crescer? Porque quando o grupo parte da vida real das pessoas, cria vínculo, pertencimento e sentido. O jovem não se sente apenas ouvindo algo “de fora”, mas reconhecido naquilo que vive. O conteúdo deixa de ser teoria distante e passa a dialogar com sonhos, desafios e escolhas concretas. Isso gera mais envolvimento, maturidade e compromisso.

Indicativo prático: Você pode começar com uma roda de conversa, uma partilha inicial, uma dinâmica de escuta, uma pergunta disparadora. Vai levar mais tempo? Vai sim. Na prática, isso significa começar o encontro escutando, perguntando, acolhendo o que as pessoas trazem, antes de apresentar qualquer conteúdo. E a experiência mostra que os resultados costumam ser muito mais profundos.

2. Perguntas orientadas ao acerto x Perguntas orientadas ao sentido

Seguindo a linha da dica anterior que contrapunha conteúdo x vida, esta dica quer contrapor a "resposta pronta"  x "razão da resposta". Há pessoas que vivem andando nas certezas, repetindo frases feitas e sustentando uma fé muito mais teórica do que vivida. E replicam este modelo na vida dos grupos, fazendo perguntas para testar conhecimento, confirmar respostas “certas” e controlar a conversa e a narrativa. Não há discussão sobre o que é diferente ou sobre outros olhares. O certo é o certo.

Não se trata de uma prática errada, mas eu prefiro, novamente, um caminho mais longo, mais processual e, na minha opinião, que ajuda as pessoas a amadurecerem suas crenças. 

A alternativa pastoral: É preciso dar razões àquilo que acreditamos. Nossas perguntas não devem ir na trilha de descobrir o que sabem, mas para ajudar a refletir, provocar sentido, conectar fé e vida e abrir processos.

Por que ajuda a crescer? Grupos crescem quando aprendem a pensar e a discernir, e não apenas a responder o que o animador quer ouvir. Isso gera maturidade e autonomia.

Indicativo prático: Em vez de perguntar "o que o mandamento diz?", perguntamos "como esse valor desafia as suas escolhas hoje?". São perguntas que provocam reflexão, conectam a fé com o cotidiano e, acima de tudo, abrem processos internos em vez de encerrar o assunto. Não abra mão das perguntas: “O que você acha?”, “O que isso muda na sua vida?” ou “Onde você percebe isso no seu dia a dia?”

3. Ênfase em transmissão x Ênfase em descoberta

Muitos grupos trabalham a partir da formação com palestras. É um recurso muito válido. A experiência de outra pessoa sempre pode enriquecer. Mas, novamente pela questão prática, do tempo ou da escolha metodológica, pode-se cometer alguns erros neste processo. 

Talvez você já tenha ouvido falar no "modelo bancário". Há alguém que fala (o detentor do saber) e os outros que escutam (os receptores passivos). Há uma preocupação excessiva em "passar o recado", mas pouca abertura para a participação real. O resultado, quase sempre, é o desinteresse e a sensação de que o grupo é um grande balde que deve ser preenchido com a sabedoria dos outros.

A alternativa pastoral: A proposta é trocar a transmissão pela descoberta. É o "aprender fazendo". O grupo deixa de ser um auditório para se tornar um laboratório de experiências, onde o conhecimento é construído coletivamente através da experimentação e da reflexão em comum.

Por que ajuda a crescer? Quando o jovem descobre uma verdade a partir da própria experiência ou no diálogo com o grupo, ele se apropria dela. Ela deixa de ser algo "externo" e passa a ser convicção pessoal, tornando o aprendizado muito mais duradouro e significativo.

Indicativo prático: Se quiser fortalecer este aspecto, procure utilizar dinâmicas, leitura orante em pequenos grupos e momentos de partilha onde todos tenham o mesmo tempo de fala. O protagonismo começa na construção do saber.

4. Centralidade no Professor x Centralidade no Grupo e nas experiências

Ainda na linha da dica anterior, há um risco de que muitos grupos, até mesmo sem perceber, fiquem dependentes de um "animador que sabe tudo". Esse modelo de "professor central" cria um círculo de dependência: se o líder não vai, o grupo não acontece; se o líder não fala, ninguém se mexe. Isso gera passividade e mata a corresponsabilidade.

A alternativa pastoral: Colocar o grupo e a experiência coletiva no centro. Aqui, o papel do assessor ou coordenador não é ser o centro das atenções, mas o facilitador do protagonismo. O foco sai da figura individual e vai para a construção coletiva e para a vivência dos membros.

Por que ajuda a crescer? Grupos crescem e se fortalecem quando deixam de ser "plateia" de um show individual e se tornam "sujeitos" da sua própria caminhada. A corresponsabilidade é o que sustenta o grupo a longo prazo.

Indicativo prático: Se você gostou dessa proposta, promova o rodízio de tarefas e o planejamento participativo. Permita que diferentes pessoas conduzam os momentos de oração, mística ou discussão.

5. Avaliação por respostas x Avaliação por frutos na vida

Por fim, temos o vício de avaliar o sucesso de um grupo pelo nível de informação retida: "eles decoraram?", "acertaram a resposta sobre o dogma?", "conseguem repetir o que foi dito?". É uma avaliação puramente intelectual e, muitas vezes, superficial.

A alternativa pastoral: A avaliação pelos frutos. Como diz o Evangelho, "pelos frutos se conhece a árvore". Avaliamos o crescimento do grupo observando as mudanças de atitude, o aumento do compromisso com a comunidade, o cuidado mútuo entre os membros e a sensibilidade social.

Por que ajuda a crescer? O crescimento real de um grupo não se mede pelo que acontece dentro da sala de reuniões, mas pelo que transborda para o cotidiano. Se a vida lá fora está mudando, então algo de Deus está acontecendo no grupo.

Indicativo prático: Por isso, em vez de provas formais ou perguntas de fixação, faça momentos de revisão de vida. Pergunte: "Quais gestos novos essa caminhada tem gerado em nós?" ou "Como estamos sendo presença no mundo?".

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Estas cinco viradas de chave não acontecem do dia para a noite. Exigem paciência de quem acompanha e coragem de quem coordena. Mas, ao priorizar a vida, o sentido, a descoberta, o grupo e os frutos, garantimos que o crescimento não seja apenas em número, mas em profundidade e fidelidade ao Evangelho.

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