quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Carta de Paulo à Comunidade que vive no Brasil

Se o Apóstolo São Paulo escrevesse hoje uma carta às comunidades cristãs que vivem no Brasil, como seria? Fiz um exercício de imaginação e espero ter sido fiel ao estilo paulino.

(...)


Paulo, servo de Cristo Jesus,

à comunidade de Deus que vive no Brasil,

chamada à santidade e ao testemunho em Cristo,

graça e paz a vós da parte de Deus, nosso Pai,

e do Senhor Jesus Cristo.

Dou graças ao meu Deus todas as vezes que me lembro de vós, recordando a fé que se torna visível em vossas obras no Senhor e o amor que vos une. Chegaram até mim notícias de vossa generosidade, de vosso desejo sincero de buscar a Deus e de viver o Evangelho nas alegrias e sofrimentos do vosso povo. Por isso me alegro e bendigo o Senhor, que não cessa de agir no meio de vós por meio de Cristo Jesus.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

Ninguém caminha sozinho


Às vezes a gente entende a importância do grupo quando alguém falta. A cadeira vazia chama mais atenção do que a sala cheia. O encontro termina, o café esfria, e fica a pergunta no ar: “Vocês viram o fulano? Faz tempo que não aparece...”. Nem sempre alguém foi atrás. Nem sempre alguém perguntou. E é justamente aí que o grupo revela o que ele é, ou o que ainda precisa aprender a ser. Porque, na fé, no grupo, ausência nunca é detalhe; é gente.

Não por acaso, a fé cristã nunca foi pensada para solitários. Jesus não chamou indivíduos desconectados, chamou pessoas para formar um corpo. Chamou pelo nome, reuniu em torno de si, caminhou junto e enviou. O discipulado nasce do encontro e se sustenta na comunhão. Por isso, na vida da Igreja, o grupo não é acessório nem estratégia organizacional. Ele é chão e mesa: chão de comunidade, onde a fé ganha rosto, e mesa onde a caridade aprende a ter nome.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

Quando o Perdão Não Apaga a Memória

A comunidade de São Miguel sempre foi conhecida por seu sino azul, que ecoava pelas manhãs como um convite à vida. Antes mesmo do sol romper por completo o horizonte, Dona Estela já caminhava em direção à capela, abrindo as portas de madeira que rangiam como quem desperta devagar de um sono profundo. Era uma comunidade pequena, simples, marcada por laços fortes e, como toda pastoral viva, também por tensões que surgem quando o zelo ultrapassa a sensibilidade.

Numa dessas manhãs de quinta-feira, enquanto o cheiro do café recém-passado se misturava ao perfume do incenso da missa diária, Estela percebeu que Clara não estava no seu banco habitual. Clara era jovem, dedicada, sempre sorridente... Pelo menos até a semana anterior, quando uma discussão pública com Beatriz, coordenadora da Pastoral do Canto, abalou o clima da comunidade.

Tudo começou com a preparação da Missa da Padroeira. Beatriz, perfeccionista, exigia que cada ensaio fosse impecável. Clara, recém-chegada ao grupo, desafinou num trecho delicado do salmo. A correção de Beatriz, dura e feita diante de todos, feriu mais do que a voz de Clara. Palavras ríspidas foram trocadas, e o silêncio que se seguiu pesava mais que o som do sino azul.