terça-feira, 28 de setembro de 2010

Protagonismo juvenil

Até o artigo passado, falamos bastante sobre o papel do grupo, sua organização, relações, metodologia e princípios. No texto de hoje e nos próximos dois também, a ideia é dar um olhar mais atento para a pessoa que está em nosso grupo, no sentido de que é importante que seus dons sejam valorizados e ela cresça como pessoa e interaja com o grupo e com a sociedade.

O presente texto é em boa parte inspirado num artigo de Regina Magalhães de Souza, chamado “Protagonismo juvenil: o discurso da juventude sem voz”, bem como nos textos clássicos do Pe. Jorge Boran. Percebo uma necessidade de se discutir mais sobre o que significa protagonismo juvenil, porque muito se fala e se escreve sobre esta expressão. E há um bocado de gente utilizando-se dela num sentido contrário ao que a Pastoral da Juventude vem utilizando desde a década de 1980.

29.    O que é esse tal de protagonismo juvenil?

Eu normalmente quando quero buscar a definição de algum termo procuro num dicionário. Quando é uma expressão que me seja desconhecida, caço o significado num buscador da Internet. Há pouco mais de um ano, eu achava que sabia o que era “protagonismo juvenil”, até que um amigo de pastoral me disse que estavam usando esta expressão de uma maneira diferente daquela que nós na PJ usávamos.

Façam o teste. Procurem pela expressão no buscador de sua preferência. Eu fiz o teste e digo que tirei duas conclusões. Primeira: na maior parte dos resultados, protagonismo juvenil está firmemente associado a uma atitude pessoal e apolítica. Segunda: boa parte destes textos é escrita por grupos capitalistas ou por assessores ou ONG’s ligados a estes grupos.

Um olhar atento sobre estes textos aponta para algumas semelhanças com aquilo que a PJ prega: o jovem é o ator principal da sua ação, ele aprende fazendo, o processo é o passo mais importante. São estas semelhanças que podem acabar confundindo um pouco as reais diferenças entre o entendimento da PJ e o que se fala por aí sobre protagonismo juvenil.

Há algo central dentro da proposta da Pastoral da Juventude. Toda a ação e toda formação têm por pano de fundo o seguimento da proposta de Jesus Cristo e a antecipação do Reino de Deus. O que está errado dentro deste parâmetro deve ser denunciado e corrigido. O que segue o mesmo princípio deve ser incentivado e anunciado.

Dentro desta ideia também se insere a temática do protagonismo juvenil. Não é somente tendo o jovem a frente de qualquer iniciativa bacana que, na perspectiva da PJ, podemos chamar de protagonismo. Como disse anteriormente, há muito trabalho de ONG’s que contam basicamente com jovens na execução, num esquema que chamamos de voluntariado e que não tem a mesma percepção de protagonismo que a PJ.

Não digo aqui que o voluntariado é ruim, como também boa parte das ONG’s não é. Segundo Regina Magalhães de Souza não é protagonista o mero executor de atividades. Não é a juventude quem cria formulações a respeito de si própria. Ela apenas adota, participa da formulação (a partir de algo prévio), implementa (algo também que não foi estabelecido por ela).

Na origem do termo, protagonista é o lutador principal; remete também à metáfora de que o jovem é o ator principal da cena ou da peça. Ele tem, portanto, uma postura contestatória da luta pelos direitos e criação da própria identidade. Na maioria dos documentos e textos que você vai encontrar pela Internet, o protagonista é tido como um ator social que persegue os interesses particulares, estabelece projetos realistas, negocia, estabelece alianças com outros atores e é executor de ações em seu próprio benefício, grupo mais próximo ou localidade.

Este novo protagonismo não usa o termo “política”. Em seu lugar são utilizados termos como “atuação prática”, “novas práticas coletivas” ou “novas formas de atuação social”. A relação que se faz entre protagonismo juvenil e voluntariado diz que o jovem não é só o beneficiário, mas o promotor da “transformação social”. A motivação não está na caridade, fraternidade ou o amor ao próximo, mas a “transformação do mundo”, a “mudança social” ou a “solução dos problemas sociais”, embora algumas destas ações tenham caráter assistencialista. A tal “transformação social” não aponta para uma ruptura com as estruturas de morte e que impedem a antecipação do Reino de Deus, mas para a reversão de uma situação negativa que afeta um grupo localizado de pessoas.

Na PJ dizemos que o grupo de jovens é semente do Reino de Deus. As relações que se querem criar a partir do grupo precisam ser sinal deste Reino, apontando para onde as injustiças acontecem e para onde a vida floresce. E no entender da PJ o protagonismo juvenil remete a uma ação além dos interesses particulares. Ele é o momento preciso e precioso em que os próprios jovens podam criar, interferir na essência e elaborar políticas para defesa de seus direitos. É preciso, portanto, ressignificar a expressão protagonismo juvenil para que as juventudes não sejam portadoras de um discurso que os controla e domina.

2 comentários:

  1. oi amigo Rogerio. Otima reflexão. eu estou pesquisando sobre esta realidade do protagonismo juvenil para a especialização. Creio que temos um contribuição muito importante a ser levada em conta no meio academico e tambem no meio eclesial. Em tempo: meu blog tive que mudar o endereço. o que vc tem foi bloqueado não sei porque razão. não consegui acessar mais. o novo endereço:http://www.oni-eterno.blogspot.com/
    Abtaços,
    Onivaldo

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  2. Saudações caro amigo, como vai?

    Ótima a sua reflexão... E como bem sabe, pois já trocamos e-mails/idéias sobre o tema, estou abordando esta temátiva no meu TCC... Defini que irei falar da importância da PJ nesse processo de despertar/ construir o protagonismo juvenil...
    Ah! E mais uma vez agradeço a indicação da Regina Magalhães... Posteriormente podemos trocar novas idéias!!!

    Mais uma vez PARABÉNS pelo ótimo trabalho que vens fazendo no "E por Falar em Pastoral"... Tá muito gostoso de acompanhar!!! = D

    Forte Abraço e Força na Luta!
    Henrique Pejoteiro
    PAZ E BEM!!!

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