sábado, 12 de agosto de 2017

Você já pensou em seu projeto de vida?

Um dos grandes presentes que a Pastoral da Juventude me deu foi apresentar a ideia de desenvolver um projeto de vida. A sensação de ser levado pela maré, de seguir tendências, de não se ter o mínimo controle da própria existência é, no mínimo, preocupante.

A gente aprende desde cedo na PJ que é preciso que o/a jovem seja protagonista de sua própria história. Isto não pode ser tomado de uma maneira desconectada da realidade, sem um fundamento sólido, sem valores éticos e morais e sem entender as perspectivas que se apresentam diante de si.

A ideia de que “o futuro a Deus pertence” nos passa o sentimento de confiança espiritual, mas corre o risco de nos tirar a responsabilidade pelas nossas decisões. Fato é que tudo que fazemos ou deixamos de fazer apresenta, de certa forma, resultados nos passos que ainda serão dados.


Pensar num projeto de vida é refletir sobre seu passado, analisar seu presente e elaborar planos e condutas para o futuro. É uma tentativa necessária para dar um sentido àquilo que se vive e parte da ideia de que podemos escolher que passos serão dados.  

Há vários pontos que devem ser considerados. Hoje a nossa realidade nos exige que decidamos logo cedo o que seremos no futuro. No entanto, a expectativa e a vontade de que isso dê certo o quanto antes são muito perigosas. A chance da frustração é enorme porque, o/a jovem não detém todo o conhecimento e a experiência para saber fugir de situações nitidamente pouco ou nada producentes. E ainda há a imprevisibilidade.

Imprevisível é aquilo que não se pode prever. E isto pode acontecer com qualquer projeto, planejamento ou ação. É sempre um risco que pode nos paralisar. Riscos, no entanto, podem ser minimizados se nos anteciparmos a eles. Riscos são sempre possibilidades. E se é possível, é preciso se preparar para eles.

A preparação, contudo, não é sempre tão simples. Boa parte dos jovens e das jovens não são educados para conseguir abrir os horizontes e ver alternativas e caminhos. Lembro muito bem de um crismando que, ao ser questionado sobre o que sonhava para seu futuro, me disse que não sonhava, apenas sobrevivia.

Planejar o projeto de vida tem esse elemento do sonho e do desejo. Sem sonho, sem horizonte, sem o desejo de caminhar não se constrói projeto de vida. Mas não tiro toda a razão daquele crismando. O sonho se constrói dentro das possibilidades que se vive, dentro da história e da cultura, seja da pessoa, seja da sociedade que a cerca e, dependendo da realidade do indivíduo, isto pode ser bem limitado. Por isso é preciso ser cuidadoso ao se apresentar alternativas viáveis.

Outro risco desta tríade passado-presente-futuro está na tentação de achar que o presente é só uma preparação para o futuro. Um projeto de vida bem feito precisa contemplar o agora e o depois. Vivemos num tempo de extremismos em diversos aspectos. Ou só pensamos no futuro ou só vivemos os prazeres do presente. Isto não é equilibrado. É como achar que ser jovem é se preparar para ser adulto, como se não houvesse beleza no viver a juventude. Ou ainda não acreditar no futuro e gastar toda a sua potencialidade, recursos e energia no presente momento.

Se o contexto é importante para pensar o projeto de vida, a história pessoal também o é. Pensar na sua raiz, nas pessoas que acompanharam seu crescimento, nos valores que lhe foram passados, nas dificuldades vividas, nas lições aprendidas. Isto é a bagagem que se carrega ao longo da estrada. Destas malas sempre se podem tirar lições, aprendizados, novidades recicladas.

Sim, os valores. O projeto de vida proposto pela PJ é pautado nos valores do Reino, na maneira de viver do jovem galileu Jesus. Não são frases soltas ou sentimentos emotivos. Ele nos deixou exemplos práticos. A felicidade/salvação está na doação/serviço a quem mais precisa. E, diferente da lógica social, quem mais precisa é quem é desprezado pela sociedade.

E para não desanimar, é necessário o contato com o sagrado. O bom é que ele é muito simples, como uma conversa com o pai. Um amigo escreveu esses dias: “Quando você conversa com alguém, você não pensa nele, você está com ele”. Assim era a oração de Jesus. Assim era sua relação com o Pai. Assim é a espiritualidade vivida pela Pastoral da Juventude que provoca a viver no cotidiano a experiência do sagrado.

Um último detalhe, não menos importante. É muito difícil um/a jovem tocar seu projeto de vida sem acompanhamento. Ausente a figura de alguém mais experiente, o risco desta postura está no aprendizado feito na base da tentativa e erro. O risco da frustração e abandono do projeto é alto.

Ter alguém que acompanhe o/a jovem nesta elaboração, por outro lado, não significa dizer o que ele/a deve fazer. A tentação é enorme. Nós, assessores, já vimos e vivemos situações parecidas e muitas vezes por zelo não queremos que eles/as percam tempo ou se iludam. Essa é uma postura errada.

Digo da minha experiência. O caminhar não é meu. As decisões não são minhas. O que eu posso fazer é ajudar a pensar, a problematizar, a indicar outras possibilidades e a fazer com que quem eu acompanhe tome a decisão convencido/a de que escolheu o que era melhor para si.

O futuro é incerto. Claro que é. Mas ele precisa ser pintado de esperança. Não da espera, mas da ação. Vou sempre me lembrar da figura sertaneja que mesmo diante da seca, ara a terra, trata-a e semeia. É a esperança ativa de quem age antes, de quem confia no sagrado e por isso está preparado para o futuro.

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