“Feliz Dia das Mulheres!”
Todo 8 de março costuma vir acompanhado de flores, homenagens e frases bonitas. Mas a origem deste dia está muito longe disso. Ele nasceu da dor, da luta e da resistência de mulheres que, ao longo da história, foram exploradas, silenciadas e violentadas.
Aí você, meu colega, minha amiga, lê essa ideia inicial e pensa: “Lá vem mais um textão militante que vai falar de machismo e empoderamento das mulheres…” Sabe que você tem razão? Eu queria escrever algo assim mesmo. Falar da origem, da importância e da atualidade desta data. Mas muita gente, com mais estudo e experiência do que eu, também fará isso. Por isso, gostaria de temperar esta reflexão com outros olhares.
Muito antes de nós existirmos, em
diferentes culturas e épocas, havia uma forma de olhar para o feminino
considerada normal, natural ou até divina. Durante séculos, as mulheres foram —
ou ainda são? — tratadas como propriedade, impedidas de opinar, confinadas ao
espaço doméstico, reduzidas a objetos ou definidas apenas pela função de servir
e gerar filhos.
Você pode me dizer, com razão,
que muita coisa mudou. Sim, mudou. Mas olhe quanto ainda falta. Basta observar
os números, as notícias e perceber se o incômodo aparece ou não. Ainda vivemos
numa sociedade em que muitas mulheres continuam sendo agredidas, humilhadas,
violentadas e até mortas simplesmente por serem mulheres. Uma amiga me disse
certa vez:
“A gente está morrendo a
cada seis minutos. E sendo violentadas a cada segundo.”
Isso me incomodou profundamente.
Creio que deveria inquietar a consciência de todos nós.
Essa violência não é apenas
física. Eu me envergonho das bobagens que já falei para algumas meninas da PJ e
agradeço a elas pelas broncas didáticas que recebi. É aprendizado. Não quero
ser machucado e não devo machucar ninguém.
Mas muitas mulheres estão
cansadas. Cansadas de ter que explicar o que parece tão evidente. Cansadas de
justificar por que certas palavras ferem, por que certas atitudes são
desrespeitosas, por que certas violências não podem mais ser toleradas. Há
momentos em que elas já não têm forças para explicar — e isso também precisa
ser compreendido. Muitos homens interpretam essa falta de paciência como
agressividade e se colocam no papel de vítimas. Olha a inversão, gente!
Acredito que seja hora de nós,
homens, assumirmos uma responsabilidade maior. Não esperar apenas que as
mulheres continuem nos ensinando (embora muitas façam isso há décadas), mas
olhar com sinceridade para nossas atitudes, para nossas conversas quando estamos
só entre nós e para os ambientes que ajudamos a construir. Precisamos nos
sentir desconfortáveis com essa realidade.
E essa conversão não é apenas
individual. É comunitária. Passa por rever piadas que diminuem, por interromper
atitudes violentas, por educar nossos filhos e filhas no respeito, por criar
ambientes paroquiais e pastorais seguros, por promover rodas de conversa que
incluam e escutem as mulheres, por revisar práticas e estruturas que ainda
reproduzem desigualdades. Passa por não sermos cúmplices do machismo através do
silêncio e por não “passar pano” para aquele amigo que “pisou na bola”. Uma
comunidade cristã que não se compromete com a dignidade das mulheres trai o
mesmo Evangelho que anuncia.
E que possamos compreender que
esta mesma dignidade não é apenas uma concessão da sociedade. É um dom de Deus.
Quem se diz cristão é chamado a reconhecer isso e colocar em prática: no
respeito, na escuta, na divisão das tarefas, no cuidado comum, no debate sadio de
ideias, na promoção humana.
Jesus nunca tratou as mulheres
como a cultura de seu tempo esperava. Ele as escutou, as acolheu e lhes
devolveu dignidade diante de todos. Ele transformou ambientes, relações e
mentalidades — e nos chama a fazer o mesmo.
Por isso, mais do que um dia de
homenagens, o 8 de março pode ser também um dia de exame de consciência para
nós, homens e comunidades: que tipo de relações estamos ajudando a construir?
Quantas vidas estamos ajudando a preservar? Que tipo de mundo estamos deixando
para as próximas gerações?
Que este dia nos ajude a dar
passos concretos para que as mulheres possam viver aquilo que Deus sempre quis
para todos os seus filhos e filhas: respeito, dignidade e vida em abundância.
Flores são bonitas. Podem ser
dadas. Mas a justiça e a mudança de atitude são ainda mais necessárias.

