sábado, 6 de maio de 2017

Sobre estar atento aos sinais

Há pessoas por todos os lados. Na sala de aula, no transporte público, do lado de lá do vidro, do trilho, do biombo do escritório, no banco da igreja, da praça, nas filas, nas vilas, nas famílias e nas calçadas cheias de caminhantes. A gente tropeça em pessoas. A gente ouve seus gritos e conversas em boa parte do dia. Há mesmo muita gente. Estamos cercados por eles e elas.

Há tantas pessoas sozinhas. 


Solidão não é falta de pessoas ao redor. É falta de gente na vida. Não de gente que dê pitaco, aponte o dedo ou relembre dos erros. Não. Não de gente só com boca, mas de gente com ouvidos, com ombros, com colos disponíveis.

Dias atrás, muita gente falou da tal da Baleia Azul. O assunto meio que sumiu (eu ia escrever "meio que morreu"). O problema da falta de acompanhamento das crianças, da solidão e frustração adolescente, do suicídio juvenil continuam aí. Não é mais pauta do dia, porém.

Eu sou adulto e sei que tenho alguns mecanismos pra poder espantar a solidão e para lidar com minhas frustrações. Quando estas situações parecem que vão virar um problema, porém, eu preciso sempre de alguém para me ajudar, seja o aconchego da família, uma seção de psicoterapia, um aconselhamento espiritual ou só de um par de ouvidos atentos.

Há muita gente sozinha, sofrendo e sem ter um mínimo de esperança de achar uma luz. Pode ser até que tenha alguém aqui, no meu círculo de amizades, entre os amigos dos meus amigos, na roda familiar. Certamente tropeço em algumas delas todos os dias nas ruas.

Quantas dessas pessoas acham que a vida perdeu o sentido ou que não aguenta a pressão dos compromissos, ou se acha inútil, indiferente aos demais, ou que se frustra por não conseguir render, aprender, realizar tarefas como antes? Muitas. Quantas não conseguem lidar com essa situação? Várias. 

Já dizia Renato Russo que "O mal do século é a solidão. Cada um de nós imerso em sua própria arrogância esperando por um pouco de afeição". A gente desenvolve pouco a empatia. “Já temos tantos problemas, para que se envolver com os dos outros?”. Porque a gente se enriquece com a vida do outro. E é preciso que esses sentimentos sejam conhecidos para que possam ser compreendidos e trabalhados.

Muitos de nós convivemos em grupos, sejam os pastorais, escolares, profissionais, de amizade, familiares, da rua, do clube, de onde for... Nem sempre a gente sabe como a pessoa está ou pelo que ela passou, mesmo nos momentos anteriores a um possível contato ou encontro. Sei que é pouco, mas um sorriso, um bom dia, dirigir-se a ela pelo seu nome, perguntar sobre o seu dia, distribuir sinceros elogios já ajuda. 

Quando alguém nos procura para conversar, sei que a correria do cotidiano e dos tantos compromissos nos atrapalha, mas é muito importante estar disponível para ouvir, sem preconceitos ou pré julgamentos. Isso ajuda ainda mais. Sair de si e entrar no mundo do outro. Deixarmos de estar imersos em nossa própria arrogância. E há outras coisas que podemos fazer.

Se estivermos à frente de um grupo, uma atitude bacana é ajudar estas pessoas a desenvolverem empatia, a olhar o mundo pelos olhos dos outros, a serem confrontados em situações “e se fosse você”, mas com profundidade e caridade.

Se convivermos com crianças, adolescentes, jovens ou idosos, é saudável termos disponibilidade para acompanha-los em suas rotinas, ouvir suas histórias, ser e fazer-se presente em suas vidas. E procurar distinguir até onde se pode entrar ou estar sem que isso se torne “invasão”. É muito difícil, mas é essencial compreender este limite.

Não digo, porém, que nossas relações todas precisam deste caráter terapêutico. Sei que não é possível. E não é necessário que seja. Mas é preciso que saibamos cuidar das pessoas dentro do nosso convívio e a sermos bem educados com todos e todas. 

Cuidado e educação ajudam. Sei também que não sou especialista em depressão, suicídio ou solidão, nem estudei sobre isso... Mas ao menos para mim, quando a tristeza bate, isto tudo me ajuda. E acho que pode ajudar os outros também.

Um comentário:

  1. É um tema bastante interessante. Conheço várias pessoas que tiveram ou têm depressão, além de mim. E não é fácil. Eu tive ajuda de um padre que pediu para que eu procurasse um profissional para ajudar. Assim, como já ocorreu de jovens de grupos de base estarem em momento complicado; vieram atrás de mim pedindo indicação de profissionais para ajudar, além de uma boa conversa. Às vezes é algo mais simples, passageiro. Outras vezes, é algo que precisa de amparo de amigos e familiares e auxílio de profissional. Os nossos jovens estão precisando de atenção. Todos nós estamos. Precisamos de amor e respeito, assim como temos que oferecer amor e respeito. Fiquemos atentos e solícitos.

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